Leia a abertura de Noite sem Fim:


Acomodou-se no banco e inclinou o corpo para frente, de forma a apoiar o tronco na mureta e deixar a cabeça repousando sobre os braços cruzados. Aquela seria a posição ideal para observar o Intrepid desaparecer na escuridão do oceano.

Estava sozinho ali, mas percebeu que havia uma pequena plateia com aspecto melancólico, também assistindo à cena no cais ao lado. Decerto, eram familiares ou amigos de algum tripulante do navio; não deu bola para eles e se concentrou na silhueta do Intrepid, já com velas ao vento, agora a uns bons duzentos metros de distância do cais. Estava atrasado.

A lua cheia que acabara de nascer já ganhava altura, abrindo caminho no céu estrelado. O luar irrompera as sombras e agora iluminava os contornos da Vila e o mar que se espalhava adiante. O rastro do navio era um ondulado pintado de branco na luz prateada e oscilava como se acenasse em despedida. O vento soprava suave como palavras sussurradas ao pé da orelha. A temperatura era amena e agradável. Pequenas nuvens salpicavam o céu, mas não ousavam encobrir a lua, soberana daquele início de horário de descanso. Martin agradeceu a sua presença; sem ela, pouco veria da partida do Intrepid em meio a escuridão que sempre imperava na Vila.

Observou outra vez as pessoas que olhavam o navio partir e sentiu-se de alguma forma ligado a elas: tinha certeza de que eram familiares e amigos dos tripulantes. Não sabia ao certo como chegara àquela conclusão, mas parecia óbvio; talvez fosse pelo olhar perdido no mar, ou talvez por que, em vez de conversar uns com os outros, apenas se abraçavam e se confortavam em silêncio.

Assistir ao Intrepid partir, a forma orgulhosa do galeão iluminado fundindo-se lentamente com a escuridão, deixava-o mais triste do que de costume. Lembrou-se de como era bom ter uma família; fazer parte de alguma coisa e ter alguém com quem se preocupar. A cena trazia à tona, de uma só vez, o motivo pelo qual não podia contar com mais ninguém.

É claro que havia o tio Alpio, com quem agora morava, mas sabia que o tio não gostava dele. Na verdade, nem tio por completo ele era. O meio-irmão do seu pai nunca havia sido próximo deles e, afora terem sido criados juntos, Martin não conseguia apontar outra coisa que o pai e o tio tivessem em comum.

O filho único do tio Alpio era um problema à parte. Com quinze anos (um a mais que Martin) Noa tinha um temperamento oposto ao seu. Como era de se esperar, o primo não havia gostado nem um pouco que Martin tivesse tido de se mudar para a sua casa. Noa fazia questão de lembrá-lo disso sempre que podia.

De modo geral, a exemplo do pai, Martin percebia que nada tinha em comum com os dois e, como a esposa do tio falecera no parto de Noa, não havia mais ninguém para tentar melhorar a situação. O resultado era que a única coisa de que gostava no novo lar era da Ofélia, uma morfélia que cuidava da casa. Martin não conseguia evitar de achar graça: o melhor da casa era uma morfélia. Aquilo resumia tudo.

Seu pai havia desaparecido no mar há seis meses em um navio idêntico ao Intrepid. A cada dia que passava, sentia mais a sua ausência. Omar, seu melhor amigo, dizia que se acostumaria a viver sem ele, mas Martin não estava certo disso. Talvez, com o tempo, passasse a guardar apenas as boas lembranças da vida em família. Era possível que fosse verdade, mas agora parecia que esse tempo ainda estava muito distante.

O processo de aceitar que o pai havia mesmo desaparecido (como todos os outros que embarcavam para o Além-mar) tinha sido difícil. Logo no começo, mesmo precisando mudar de casa, mantinha a rotina como se nada tivesse acontecido; achava que o pai retornaria a qualquer momento e tudo voltaria à normalidade. Com o passar do tempo, viu que a vida na Vila seguia no mesmo ritmo sem pressa de sempre e, aos poucos, entendeu que todos já haviam se esquecido do navio que partira. Percebeu que o pai não retornaria e que o mesmo valia para todos os outros tripulantes. A Vila toda sabia e aceitava aquele fato.

A partida dos navios a cada seis meses era a batida que embalava e dava o ritmo da vida na Vila. Com a de hoje, a melodia se reiniciava e o mesmo ciclo se repetia: hoje o Intrepid era lágrimas, amanhã saudades e depois apenas uma lembrança. Olhando assim, pensou, a coisa toda não parecia certa.

Emergiu de seus pensamentos e percebeu que o Intrepid estava quase na linha do horizonte; apenas uma pequena saliência iluminada no limite do mundo. As pessoas já deixavam o cais para ir embora e aquela era sem dúvida a coisa certa a se fazer naquele momento. A partida do navio o lançara em um estado de letargia e teve vontade de ficar ali, olhando para o mar até cansar. Pensava não só no pai, mas também em tudo aquilo que os tripulantes do Intrepid iriam encontrar.

Um arrepio percorreu seu corpo; Martin endireitou-se e cruzou os braços para se proteger da súbita sensação de frio. A ideia de que poderiam encontrar aqueles cujo nome não se dizia provocara a reação. Perguntou-se se a jornada valia aquele risco terrível. Achava que não; nunca poderia concordar com aquilo. Se dependesse dele, nenhum outro navio jamais deixaria o porto da Vila.

Não havia mais dúvida de que a hora de ir embora já tinha passado. O Intrepid sumira no horizonte, o cais estava vazio e as ruas, silenciosas. Os únicos sons no ar eram das ondas batendo contra as pedras e de uma carruagem disparando ao longe. Calculou que, àquela altura, Ofélia deveria estar servindo o jantar e o tio Alpio certamente se zangaria com a sua ausência. Decidiu partir; não que estivesse com fome, mas naquele momento a última coisa que queria era brigar com alguém. Só desejava entrar debaixo das cobertas e tentar imaginar o Intrepid em sua primeira noite no Além-mar.

Levantou-se e caminhou arrastando os pés em direção à rua que, a partir dali, afastando-se do porto, entrava num aclive suave. Na parte sul da Vila, para onde estava indo, a rua ficava em um plano um pouco mais alto e era separada do mar por uma pequena parede rochosa. Nas outras partes da cidade, a rua ficava quase nivelada com o oceano e era separada dele por uma mureta baixa de pedra — a mesma sobre a qual se debruçara há pouco.

Dobrou à esquerda na primeira perpendicular à rua do Porto e entrou na Vila, afastando-se do mar. Andava fitando o chão, as pedras retangulares do calçamento refletindo uma luz ambígua, em parte prateada pelo luar e em parte amarelada devido à luz dos lampiões pendurados nos postes. O caminhar preguiçoso revelou sons e odores que normalmente ignoraria: o tilintar de pratos e o burburinho suave das conversas, associados ao perfume de comida recém- preparada, indicavam que famílias estavam reunidas para o jantar.

Viu-se envolto no ar de melancolia que exalava uma vizinhança residencial típica da Vila. A rua por onde passava era semelhante a qualquer outra na cidade: casas de um ou no máximo dois andares, todas feitas de pedra e algumas revestidas com um reboco branco. Exibiam telhados angulosos, pontuados por chaminés solitárias. Na Vila também havia alguns prédios, mas eram pequenos, nunca com mais do que três andares. De modo geral, as construções eram todas muito parecidas e tinham as mesmas janelas quadradas das quais emanava o brilho amarelado que Martin sempre achara que era a característica mais marcante da Vila. Não que conhecesse outras vilas — é claro que não conhecia; se é que elas existiam.

Na verdade, ninguém na Vila (com exceção daqueles que iam para o Além-mar) conhecia qualquer outro lugar. Os Anciãos, aqueles que supostamente sabiam de tudo, afirmavam com veemência que a Vila era única no universo. Eles diziam que era por isso que os navios que se afastavam muito jamais retornavam: eram engolidos pelo vazio. Também era por isso que os barcos pesqueiros, quando saíam para o mar, eram proibidos de perder de vista as luzes da Vila; se o fizessem, corriam o risco de serem tragados pelo Além-mar.

Martin sempre percebera que os Anciãos defendiam aquele ponto de vista com muito vigor, talvez até mesmo com raiva. Mais de uma vez teve vontade de questioná-los; como podiam ter tanta certeza? Eles próprios nunca haviam deixado a Vila. E por qual motivo os navios zarpavam a cada seis meses para o Além-mar? Por que haveriam de partir se não existia nada lá fora?

Martin viu-se mais uma vez perdido em devaneios. Omar costumava dizer que ele estava sempre pensando demais, maquinando alguma coisa em sua mente. Afirmava que era por isso que ficava triste; seu cérebro estava, na verdade, apenas cansado. Talvez Omar tivesse razão.

        Quando chegou à casa do tio Alpio, era seu corpo que estava cansado...


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Há algo mágico: continuo comprando livros. Não posso ler todos, mas a sua presença me ajuda... essa gravitação silenciosa, sentir que estão ali...


Jorge Luis Borges


Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.


Jorge Luis Borges


Parte I


Capítulo I – As coisas que aconteceram depois que o Intrepid partiu


Martin chegou ao seu local favorito de observação, junto ao porto da Vila. O lugar não passava de um pequeno recuo na calçada, perto de onde a rua se abria para o cais do porto; tinha apenas um banco, próximo da mureta de pedra, além de um poste de iluminação com os lampiões do mesmo tipo que podia ser encontrado em qualquer parte da Vila.